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Caso Isabella Nardoni - Reflexões e Paralelos

  • Postado por Felipe "JaR"Felipe Sem Comentários Comments
    Última atualização: abril 14, 2008

    Justiça

    O caso Isabella, como é mais conhecido o trágico acontecimento ocorrido no dia 29 de março, quando fora encontrada uma menina de apenas 5 anos no jardim de um prédio em São Paulo, após a queda do 6º andar onde se localizava o apartamento em que residia. Dessa data em diante o caso teve vários desdobramentos, com suspeitas de lado a lado, prisões, e a presença constante nos noticiários da mídia escrita, vista e falada, e, no entanto, apesar dessa exacerbada exposição diária a pergunta que ainda está presente é: Quem matou a menina Isabella?(Sim, a conclusão é de que se trata de um homicídio!)

    Na tentativa de responder a essa e outras perguntas, iniciou-se uma investigação realizada pela policial civil de São Paulo, acompanhada de perto pela imprensa e conseqüentemente pelas pessoas interessadas em cada fato novo divulgado, com o intuito de esclarecer as circunstâncias que levaram a essa ocorrência fatídica. Inicialmente as versões apresentadas pelo pai e pela madrasta da criança, apontavam para uma tentativa de assalto que restou frustrada e culminou com o assassinato da criança, no entanto, essa versão foi descartada, visto que, nada fora levado da residência.

    Nesse ínterim, a Perícia Técnica detectou vestígios de sangue no apartamento, além disso, Isabella parece ter morrido por asfixia e quebrou apenas um pulso na queda. Há também o relato de vizinhos que teriam ouvido a menina gritar “Pára, pai! Pára, pai!”, fatos que em tese, serviriam para por em xeque o restante da versão contada pelo pai da menina de que deixou-a no apartamento dormindo sozinha no quarto após chegar de uma saída, e desceu em seguida para buscar os outros dois filhos, ao subir novamente, encontrou a tela de proteção da janela do quarto cortada e a menina caída no jardim do edifício. Diante disso, as suspeitas se voltaram para o casal e em especial ao pai de Isabella, Alexandre.

    Poder de Influência da Imprensa

    A constatação de que se tratava de um homicídio, o clamor popular, a tragédia que assola uma família aparentemente normal, tudo isso reunido passou a ser um “prato cheio” para a imprensa, sensacionalista ou não, preencher as suas publicações com os fatos relativos ao ocorrido e ampliar a vendagem de seus exemplares. Aqui, mister esclarecer, não defendo a crucificação da imprensa de maneira gratuita, pois, acredito na liberdade dela sem restrições, e em seu dever de informar a sociedade de maneira imparcial. O que critico é justamente a falta de imparcialidade que parece acometer diversos veículos de comunicação, ao informar às pessoas sobre esse caso, pois, além de externar as opiniões sobre a notícia, fazem um julgamento antecipado sobre a culpabilidade dos envolvidos sem o menor embasamento em provas, somente em meros indícios fragmentados que vão surgindo com o transcorrer da investigação.

    É importante que a imprensa ao fazer a cobertura de um caso envolvendo tanto clamor social, procure divulgar a notícia de forma a não influir na opinião dos indivíduos, deve levar a notícia sem nenhum juízo de valor, para que o receptor da informação tire suas próprias conclusões, além disso, deve ter ciência do imenso poder que detém, tendo a exata idéia de que uma publicação errada ou tendenciosa pode trazer sérios prejuízos aos envolvidos e a credibilidade dos próprios meios de comunicação.

    Muitos já fazem uma comparação desse caso, com o da Escola Base em que os donos de uma escola foram acusados de abusar sexualmente de crianças e ao final das investigações, após uma execração pública, comprovou-se que todos os envolvidos eram inocentes, no entanto, até hoje eles sofrem as conseqüências do episódio. No presente caso da menina Isabella, ao que parece, se o pai for de fato culpado, será punido ao fim da investigação, se for inocente, já estará punido.

    A atuação do Promotor e do Delegado

    Como se não bastasse uma imprensa ávida por notícias acerca do caso, ao que parece temos também para completar o “circo” formado em torno da investigação, um promotor e um delegado com tendência ao estrelato, visto que adoram aparecer para as câmeras e microfones, trazendo as últimas novidades sobre o andamento do Inquérito Policial.

    Acredito que o comportamento deles deve ser reprovado, uma vez que, informar a imprensa sobre detalhes gerais de uma investigação tão alardeada é normal, no entanto, reunir a imprensa, em entrevistas coletivas quase que diárias, para falar sobre o andamento das investigações, emitindo opiniões e adiantando julgamento, é um comportamento inadmissível para um delegado de polícia e em especial para um Promotor Público, que como fiscal da Lei, deve primordialmente respeitar os limites de sua função.

    O comportamento do Promotor chegou a tal ponto que o juiz Maurício Fossen, anunciou o fim do sigilo sobre o inquérito policial do caso em função da atuação do promotor Francisco Cembranelli, responsável pela apuração, pois este haveria revelado detalhes das investigações à Justiça, além de divulgar as contradições entre os depoimentos do pai e da madrasta de Isabella mostrando, com suas atitudes, que o sigilo “não constitui formalidade imprescindível”, assim, “nada mais justifica a manutenção da providência”.

    O papel do povo no caso

    Para aqueles que acompanharam a saída do pai de Isabella e de sua madrasta da cadeia após a concessão de Habeas Corpus, tiveram a noção exata do quanto à soma de uma imprensa tendenciosa, da irresponsabilidade dos encarregados pela investigação, e de população com sede de justiça pode ser perigosa. Na frente das duas delegacias em que estavam presos, vários jornalistas e moradores da região se aglomeraram para acompanhar o momento da soltura, sendo eles xingados por vários curiosos, que além de tudo clamavam por Justiça.

    Mistura de tristeza, raiva, curiosidade, solidariedade. Essa confusão de sentimentos talvez explique, em parte, por que pessoas anônimas queiram ficar tão próximas dos envolvidos.

    Assistindo ao Jornal Hoje(12/04), achei interessante a entrevista do psicoterapeuta João Augusto que afirmou: “A mídia, os jornalistas, as pessoas de um modo geral conseguem se identificar com a família, uma família de classe média, aparentemente normal, onde não havia conflitos. Isso mobiliza muito as emoções. Este episódio se assemelha a uma minissérie. Todos os dias nós temos um capítulo. As pessoas ficam aflitas, ansiosas em acompanhar dia a dia o que está acontecendo. Há uma confusão muito grande entre o que é fantasia e o que é realidade“, diz o psicoterapeuta João Augusto Figueiró.

    Por fim, é necessário enfatizar, que a sociedade brasileira como um todo, clama por justiça, mas, para se fazer justiça, deve-se trilhar o caminho adequado, proporcionando uma investigação completa, sem juízo de valor oportunista, sem condenações antecipadas, oferecendo a oportunidade ao acusado(s) de defesa ampla irrestrita, para só então, a partir de um julgamento adequado e tempestivo, chegar-se a uma decisão que reflita de fato a justiça que o caso requer. 

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